Os Guardiães e Coronéis da Cultura, Protegendo “O Povo” de Si Mesmo, Mais Uma Vez

caboclo1(in English)

Este post pode parecer uma estranha reprise de outro publicado oito meses atrás.

No dia 25 de maio, uma comemoração aconteceu próximo à cidade de Nazaré da Mata, em Pernambuco. Realizado no engenho de açúcar onde fica a sede histórica da Cambinda Brasileira, o maracatu mais antigo da cidade, o evento comemorava o reconhecimento do maracatu e do cavalo marinho como patrimônio imaterial pelo governo brasileiro. Com um palco profissional, sistema de som e luzes, e dezenas de artistas e outras personalidades se apresentando e discursando, foi sem dúvida uma festa linda.

E foi também uma grande palhaçada.

Por trás da retórica da euforia, vê-se um espetáculo encenado para as lentes das câmeras, onde as elites políticas e culturais de Pernambuco podiam se parabenizar pelo trabalho dos outros, e desviar a atenção da sua contínua exploração da cultura popular, usada como mercadoria e expediente simbólico. Meros dez dias mais tarde, o mesmo governador que discursou no palco naquela noite assinou uma nova lei (Lei N° 15.516) que proíbe eventos em espaços públicos entre as 10 da noite e as 10 da manhã, e veta a participação de crianças menores de 14 anos na rica tradição cultural de suas próprias comunidades. Naturalmente, uma exceção à lei será feita a eventos sancionados pelo governo e sua elaborada rede de clientelismo, que inclui a instituição governamental de apoio à cultura, FUNDARPE, organizações manipuladoras como a Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco, além do estranho grupo de “produtores culturais” que representam as parcerias públicas e privadas que têm dominado uma grande parte da política cultural brasileira nas últimas décadas.

À guisa de ilustração, eu apresento a primeira evidência: o vídeo de propaganda política escancarada do estado de Pernambuco. Como era de se esperar, as únicas pessoas falando neste vídeo são políticos, burocratas e seus fantoches das organizações culturais. Frases de efeito hipócritas são intercaladas com imagens pitorescas do “populacho” se divertindo e praticando sua arte. Os autores do vídeo nem se deram ao trabalho de escrever corretamente o nome da Cambinda Brasileira.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=kHbhc2MFZgY]

Há várias questões em jogo aqui, mas eu gostaria de falar sobre duas delas neste texto. A primeira diz respeito à natureza ambígua e ambivalente de um reconhecimento oficial agraciado pelo “estado benevolente”, representada pelas missões de salvaguarda modernas, com seus inventários culturais e programas de preservação. A segunda questão é a falência conspícua das organizações que dizem representar os interesses dos artistas populares, e sua maldisfarçada exploração vergonhosa desses artistas, em nome de “promover a cultura”. No fim das contas, minha conclusão é que apesar de trágico e abjeto, este novo impasse também era absolutamente previsível. A maioria dos esforços de “preservação” na história moderna tem uma série de consequências imprevistas que, pode-se argumentar, cancelam seus benefícios. E em alguns casos, essas consequências negativas nem mesmo são involuntárias, mas a serviço de uma agenda sociopolítica de dominação e controle.

Em outubro de 2014 eu escrevi sobre a supressão policial dos ensaios de rua do maracatu e seu ritual principal, as sambadas, duelos de poesia improvisada entre dois poetas cantadores, os mestres. Os ensaios na região se iniciam em agosto ou setembro, quando a colheita da cana tradicionalmente começa, e vão até o carnaval. Essa situação resultou numa ação legal organizada por ativistas dentro e fora da comunidade do maracatu, baseada no argumento que os maracatus estavam sendo alvo da aplicação deliberadamente incorreta da lei. Em janeiro de 2015, os maracatuzeiros conseguiram uma decisão favorável da justiça, concordando com a campanha que o toque de recolher e a lei do silêncio não deveriam se aplicar aos eventos relativamente pequenos e infrequentes dos maracatus. Para celebrar essa vitória, um ensaio de noite inteira foi realizado pelo Maracatu Estrela Brilhante em Nazaré, incluindo os habituais mestres convidados, mas também centenas de visitantes do Recife, que tinham ficado interessados na campanha. Muitos deles estavam visitando Nazaré, que fica a meros 70 Km do Recife, pela primeira vez na vida, e alguns deles não estavam acostumados com as normas sociais do lugar. Me pareceu um tanto estranho na época que a reconquista do espaço pelos maracatuzeiros fosse acompanhada de uma pequena invasão de cosmopolitas jovens e descolados, mas todos se entenderam e a noite foi um sucesso.

Diante do descaso dos representantes do poder com as comunidades como as que criam e sustentam o maracatu, talvez tenha sido necessário atrair a atenção de todos esses forasteiros para pressionar o estado a repensar sua posição. Foi uma vitória significativa, mas na ocasião eu não escrevi nada a respeito neste blog, por diversos motivos. Um deles foi simplesmente pessoal, por conta de vários prazos importantes de trabalho, mas também porque eu tinha minhas reservas sobre comemorar prematuramente. Minhas conversas com amigos, que se estenderam até o carnaval seguinte, me deixaram com a impressão que a maioria das pessoas acreditava que a batalha estava ganha e resolvida. Não havia um senso de expectativa ou apreensão sobre outros possíveis desafios a seguir, mas quase uma confiança implícita que os representantes do governo manteriam sua palavra e deixariam os maracatus continuar com suas tradições em paz.

A concessão do título de “patrimônio imaterial” ao maracatu sem dúvida acalmou essas apreensões dos poucos que se preocuparam. Esse status de proteção, estabelecido de acordo com critérios da UNESCO, parece ser motivo suficiente para se relaxar um pouco. Infelizmente, uma avaliação histórica e intercultural de projetos relacionados ao patrimônio cultural também fornece várias razões para o ceticismo. Em qualquer contexto ideológico, a catalogação e a apropriação do trabalho criativo do “povo”, transformado em símbolo nacional ou regional, tende geralmente a encobrir desigualdades e silenciar vozes alternativas. Existem grupos de pesquisadores brasileiros, incluindo antropólogos, tocando esses projetos, que eu francamente considero bem estranhos e anacrônicos.

A despeito de qualquer linguagem teórica que possa revestir esses projetos, eles tendem a codificar e calcificar o que passa a ser considerado “legítimo” e “autêntico” em matéria de expressão cultural. Não tenho dúvida que existem intelectuais honestamente empenhados em descobrir como cultivar um “patrimônio polifônico” na produção cultural, e eu faço votos que consigam escapar do peso do precedente histórico que afunila esses esforços num discurso monofônico. Tenho colegas que trabalharam nesses projetos de “inventário cultural”, e outros amigos maracatuzeiros que realmente acreditaram neles e torceram para que trouxessem todos seus potenciais benefícios. Em respeito a eles, eu não dei minhas opiniões mais cínicas sobre o assunto. Afinal de contas, eu sou alguém de fora. No entanto, depois dos eventos das duas últimas semanas, parece que talvez seja hora de reconhecer que, apesar de todas as melhores intenções e por mais que haja um entendimento sobre as formas artísticas e as sociedades que as criaram, esses projetos são majoritariamente manipulados pelas elites, que com seu poder usam esses títulos oficiais como maná simbólico para dominar seus súditos leais.

No cerne dos projetos de patrimônio cultural, desde os dias de Mário de Andrade ou Edison Carneiro, está a ideia de que as práticas culturais do “povo” estão sob ameaça da modernidade e correndo o perigo de desaparecer, a não ser que sejam de algum modo salvaguardadas através da intervenção das elites. Na melhor das hipóteses, é um pressuposto duvidoso. Embora a maioria das tradições tenha uma flutuação natural no ritmo de suas atividades ao longo de sua trajetória, e algumas de fato pareceram estar à beira da “extinção” em diversos momentos, não se trata aqui do Último Rinoceronte Branco, em cativeiro e incapaz de se reproduzir. Estamos falando de conjuntos de práticas, crenças e métodos que pertencem a humanos que estão vivos e ativos, e que tipicamente conseguiram chegar até aqui muito bem, com ou sem a “assistência” de pessoas de fora. Não resta dúvida que tais esforços de preservação muitas vezes beneficiaram os artistas, mas eu encaro esses sucessos como tendo ocorrido apesar de e não por causa das equipes de “salvamento e salvaguarda”. Artistas populares são por natureza indivíduos bastante inteligentes e engenhosos, e muitos têm conseguido usar esses projetos estrategicamente, aproveitando o acesso a recursos e infraestrutura que facilitem a prática e o desenvolvimento da sua arte.

Enquanto estratégia a longo prazo, eu me pergunto se os artistas populares estão se beneficiando quando situações como o atual impasse acontecem. Eu gostaria de frisar especialmente que vi pouquíssimos desses pesquisadores ou administradores mencionados acima levantando sequer um dedo – à parte de eventuais discursos retóricos em público – para protestar contra o disparate das leis discriminatórias e racistas que estão realmente pondo em perigo as práticas culturais que eles “inventariaram” e “catalogaram”. Alguns, como o filho do falecido músico e poeta Mestre Salustiano, que tem dominado a Associação fundada por seu pai, continuam a falar em público de maneira dissimulada, como se realmente tivessem interesse em defender os direitos dos maracatuzeiros e tomar atitudes concretas.

Na festa que o governo deu para si mesmo no Engenho Cumbe, todos os ilustres convidados de costume apareceram para rasgar elogios ufanistas aos homens e mulheres do povo reunidos em torno deles. A Associação estava presente, é claro, assim como seus patrocinadores da FUNDARPE. Ninguém falou sobre os três anos em que eles não fizeram nada para impedir a restrição às sambadas e aos ensaios. Só um dos discursantes mencionou que a FUNDARPE ainda não havia pagado os artistas pelas suas apresentações no carnaval, mais de quatro meses depois do evento. No vídeo de propaganda postado acima, o atual secretário de cultura de Pernambuco diz, sem o menor pudor nem consciência, que “a gente sempre tem que fazer troca”, usando os mesmos termos tradicionalmente usados quando se fala em troca de favores, ao estilo quid pro quo, toma lá, dá cá.

Dez dias mais tarde, a Lei Nº 15.516 seria sancionada.

Ainda estamos esperando para saber o que os maracatus ganharam com essa barganha.

Os eventos das últimas semanas exemplificam de maneira concisa um fenômeno que eu comecei a observar quando os problemas relacionados ao toque de recolher implantado em 2011 apareceram e foram recebidos com inércia pelos “guardiães” institucionais do maracatu: essas instituições não têm interesse em defender os direitos culturais dos maracatuzeiros, porque se beneficiam diretamente dessas medidas draconianas. Quem é que hoje em dia possui recursos e influência política para realizar “eventos culturais” na Zona da Mata Norte de Pernambuco? A FUNDARPE, a Associação dos Maracatus e os “produtores culturais” que trabalham no corpo a corpo. Tudo parece caminhar na direção de mais e mais “mega” eventos organizados de cima para baixo, com banheiros químicos, segurança, e ambulâncias. Mais uma vez, para “proteger” as pessoas de si mesmas. Parece irrelevante agora que a grande maioria de eventos do maracatu em que eu participei, durante três anos de trabalho de campo, consistia de poucas centenas de pessoas, quando muito. Eles eram organizados principalmente pelos próprios maracatuzeiros, usando sua criatividade e relações sociais, e aconteciam em geral sem incidentes nem maiores problemas.

Isso é justamente o que organizações como a FUNDARPE e a Associação dos Maracatus mais temem: o poder de organização e autodeterminação dos maracatus, independente do clientelismo oficial.

O protesto contra essa nova lei começou imediatamente nas redes sociais, e a “classe artística” (um termo real no Brasil, e não invenção minha) urbana já se mobilizou numa manifestação que começou exatamente às 22:01. Mas no universo social do maracatu, a humildade é uma virtude, e os praticantes muitas vezes estão mais acostumados a se postar diante dos poderosos de chapéu na mão e desviando o olhar. Afinal de contas, quando os cortadores de cana da Mata Norte se mobilizaram nas Ligas Camponesas há meio século para exigir seus direitos à terra e ao trabalho, encontraram repressão policial, tortura e assassinatos, culminando no golpe militar de 1964. A batalha atual pelos direitos culturais é mais sutil, e os maracatus estão numa posição muito melhor para que suas vozes sejam ouvidas. Ou poderiam estar, se parassem de seguir o exemplo do “vamos deixar como está para ver como é que fica” dado por seus supostos protetores.

recolher2-1024x768

Pode ser difícil entender o que o governo de Pernambuco tem a ganhar com essas medidas autoritárias, sem debate ou contribuição do público, ao mesmo tempo em que se empenha em demonstrar, de modo claramente interesseiro, seu “reconhecimento” à contribuição cultural dos segmentos da população que tendem a ser pobres, negros e com muito pouco poder político. Eu cheguei a acreditar que fosse sintomático de uma certa esquizofrenia na lógica do governo, um bom exemplo de que “O Estado” não é uma coisa monolítica. A disputa de poder entre o Ministério da Cultura versus o Ministério Público e a polícia, pensei comigo, era para mostrar quem dava a última palavra sobre como o “setor popular” no interior de Pernambuco teria permissão para se expressar. Mas o desdobramento da saga desse reconhecimento de duas caras – que aplaude a cultura popular com uma mão enquanto a sufoca com a outra – sugere contornos mais sombrios no conluio entre as elites brasileiras, que às vezes têm interesses contraditórios. Elas encontraram uma causa comum na manutenção do status quo de desigualdade e marginalização, ao mesmo tempo que atraem as massas, desprovidas de direitos, para debaixo da asa “protetora” do Estado Benevolente.

Para os muitos turistas culturais e outros observadores de fora que viajam para o interior para assistir a essas apresentações, nas praças e esquinas onde elas acontecem, a pergunta principal continua sendo, “Por quê? Por que prejudicar essas pessoas que não estão fazendo nada de errado?” Desde 2012, as tentativas crescentes de policiar as práticas da cultura popular estão deixando uma coisa bem clara para mim: que o maracatuzeiro e outros tipos de artistas populares representam uma ameaça existencial à ordem social da maneira concebida pelas elites no poder. Eles têm que ser regulados, de maneira punitiva, se preciso, para afastar os fantasmas criados no infinito pânico moral das classes mais abastadas do Brasil – como a presunção de violência intrínseca e banditismo do “marginal”. Tudo isso é, obviamente, racialmente codificado, já que as pessoas que criam e praticam a cultura popular em Pernambuco normalmente têm a pele bem mais escura que as pessoas que governam e controlam o país. Isso torna leis como a 15.516 intrinsecamente racistas: uma afirmação capaz de provocar espasmos histéricos e vertiginosos de dissimulação nos legisladores, que negam tudo, e insistem que nada disso acontece. No Brasil ainda há pessoas (principalmente da classe média) que acreditam no mito da “democracia racial”, apesar de toda a evidência empírica em contrário.

Por que parece que a liberdade e a autonomia dos maracatus está diminuindo em proporção direta ao grau de reconhecimento obtido fora de sua região de origem e o aumento do seu status no mercado cultural? Como a situação pôde chegar a esse ponto? Responder honestamente a essa pergunta significa confrontar a falência das instituições culturais existentes em agir nos interesses daqueles que criam e sustentam a cultura popular.

A atual situação do maracatu e formas relacionadas de cultura em Pernambuco faz um paralelo imediato com o início do samba, e sua trajetória de marginal a glorificado. A regulamentação, a padronização, e a “valorização” oficial coexistiram numa série de decretos e medidas legais no Rio de Janeiro das primeiras décadas do século vinte, tentando criminalizar o samba, e simultaneamente promovendo-o como o exemplo mais “autêntico” da cultura brasileira. Apesar de muitos dos verdadeiros responsáveis por criar e praticar o samba terem sido empurrados do centro da cidade por projetos do gênero “renovação urbana”, eles continuavam descendo do morro para sambar – nas palavras de Donga, “onde havia festa, a gente ia”. A criação das escolas de samba e de elaborados desfiles de carnaval acabaram tornando-se as avenidas de autoexpressão sancionadas, aceitas e controladas, enquanto os arquitetos do Estado Novo faziam um esforço deliberado para apropriar o samba como música nacional, arrancando-o de seus contextos e circunstâncias locais e o promovendo no resto do país e no exterior como um símbolo da brasilidade.

É de certa forma irônico que um dos outros grandes objetivos da revolução de 1930 e as medidas cada vez mais autoritárias que se seguiram, era de fato limitar o poder das elites regionais e os privilégios dos coronéis rurais, através de interventores nomeados para os governos estaduais, a fim de centralizar o poder. Já na década de 40 a narrativa oficial era de que o coronelismo estava morto como fenômeno político. De fato, ele não existia mais no sentido tradicional, tão bem descrito nos estudos de autores como Victor Nunes Leal ou Albuquerque e Vilaça. Porém, várias nuances dos critérios estabelecidos nesses trabalhos clássicos ainda podem ser encontradas nas pequenas cidades do interior e no campo, mesmo que os mecanismos e as famílias envolvidas tenham mudado. Isto é especialmente real no “setor cultural” emergente. Eu me refiro a esse fenômeno como coronelismo cultural.

Tanto ao visitante casual quanto a meus colegas que trabalham em outras regiões do Brasil, é importante lembrar que Pernambuco parece ser um caso extremo, que combina todas as piores tendências a atitudes paternalistas e clientelismo em termos de política cultural. Em outras partes do país, muitas das iniciativas progressistas do Ministério da Cultura, como os Pontos de Cultura e incentivos da Lei Rouanet, parecem ter beneficiado e (às vezes) realmente empoderado os criadores da cultura popular. Em Pernambuco, essas mesmas iniciativas tornaram-se mais uma ferramenta de redes de clientelismo dominadas por atravessadores de influências e famílias da elite.

A eficácia desse sistema de controle social pode talvez ser medida pelas dificuldades encontradas por qualquer um que queira se pronunciar contra ele. Artistas de renome do Recife, como Karina Buhr ou Siba Veloso, podem se dar ao luxo de falar publicamente contra as práticas escusas da FUNDARPE e seu controle mafioso sobre a cultura local. Já o diretor de um maracatu, responsável por pagar homens e mulheres que trabalham durante os três dias de calor sufocante do carnaval em troca de um salário simbólico que talvez ponha comida na mesa durante alguns dias, não tem esse privilégio. Os riscos são muito maiores para essa gente, e falar contra uma organização toda-poderosa que pode facilmente cortar qualquer um da rede de clientelismo é uma aposta perigosa que a maioria prefere não fazer. Em parte, isso se dá porque a “classe artística”, que geralmente tem formação universitária ou alguma educação formal, é composta de indivíduos, enquanto a “cultura popular” continua a ser vista como inteiramente coletiva, propriedade do “homem anônimo do campo” – uma frase real, que eu encontrei numa matéria recente sobre o maracatu, num certo jornal. Dessa forma, a demanda por justiça deve ser apresentada na linguagem de direitos coletivos, da maneira estabelecida na noção de patrimônio cultural.

Um dos aspectos mais frustrantes disso tudo é uma espécie de dupla consciência que eu encontro ao conversar com meus amigos sobre essas questões. Eles sabem que estão sendo constantemente explorados por essas organizações, e sabem que estão sendo tratados de maneira injusta pelo governo, mas às vezes, no fim das contas, há um certo senso de que eles não acham que têm direito a mais. É assim que sempre foi, e é assim que sempre será.

Um grande obstáculo ao combate dessas injustiças é que normalmente é preciso haver a intervenção de ativistas e aliados de fora para organizar os grupos, porque os maracatus nunca tiveram uma organização dirigida pelos maracatuzeiros, que represente seus interesses. Alguns leitores podem fazer objeção a essa afirmação. Algumas pessoas que conhecem o assunto já me perguntaram, “Mas não é exatamente para isso que serve a Associação dos Maracatus de Pernambuco?” Não é. Infelizmente, a Associação está longe de ser uma organização democrática e, quase desde o início, tem sido um instrumento das elites políticas regionais, usado de modo similar a um poder colonial, governando através da autoridade dos clãs locais.

Em contraste a suas origens humildes, hoje em dia a diretoria da Associação está dominada por figuras conectadas à infraestrutura de políticas culturais do governo, e se senta ao lado de representantes menores do poder, paus-mandados que jamais ousariam discordar de suas lideranças. Na época em que foi originalmente fundada, e funcionava na casa do músico e poeta Mestre Salustiano, nos anos 80, a Associação serviu para abrir vias de participação na vida cultural do Recife para artistas da zona rural e migrantes, até ali estigmatizados. Sem dúvida, cumpriu uma função útil. Em vários momentos durante os anos 60 e 70, o maracatu de baque solto, ou maracatu “rural”, foi proibido de participar oficialmente do carnaval pela Federação Carnavalesca de Pernambuco. Foi discriminado, e tachado de descaracterização híbrida e degenerada do maracatu nação, que é uma forma expressiva predominantemente urbana, com uma trajetória distinta, mais vinculada às religiões afrobrasileiras.

Através da organização de grupos de maracatu formados por imigrantes vindos do interior e da zona rural, que incluiu a distensão das rivalidades e conflitos frequentemente violentos entre os grupos, unindo-os em nome de uma causa comum, a Associação ajudou a abrir um espaço no mercado cultural para o baque solto. Isso atraiu a atenção e os elogios da elite cultural, que terminaria concedendo ao maracatu uma espécie de legitimidade oficial, como quando o modernista antimodernista Ariano Suassuna, então secretário de cultura do governo de Miguel Arraes, abraçou a causa de Salustiano e o nomeou assessor do governo. Qualquer possibilidade de autonomia da Associação, controlada por e para os maracatuzeiros, foi extinta logo no começo. Seu legado em grande parte gira em torno de convencer os próprios maracatuzeiros a transformar sua cultura em mercadoria, como forma de sobrevivência, facilitando a cooptação da iconografia do maracatu pelo poder, que os transforma em guerreiros e guardiães da tradição, e desenvolvendo uma rede complexa de relações de clientelismo, que deixa a maioria dos maracatuzeiros dependente da Associação para obter recursos e oportunidades de apresentação. Na raiz disso estão questões mais complexas, como as tensões dinâmicas que envolvem o lugar das artes “tradicionais” nas sociedades capitalistas, um tema discutido de maneira eloquente pelo músico Rodrigo Caçapa no seu blog pessoal. (E, para os que queiram se aprofundar ainda mais no assunto, ele foi analisado por nomes tão diversos quanto George Yúdice, Néstor García Canclini,  Renato Ortiz, Sally Price, Pierre Bourdieu, Howard Becker, entre muitos outros.)

Lamentavelmente, a Associação tem sido instrumental para cultivar uma atitude que transforma o maracatu em folclore – em um produto fabricado sob demanda, em troca de dinheiro e clientelismo político, e orientado para um público composto em grande parte de pessoas fora da comunidade do maracatu.

É deprimente que organizações influentes como a FUNDARPE e a Associação dos Maracatus tenham se recusado a defender os maracatus durante todo esse processo de restrições contínuas e cada vez maiores. Mas não chega a ser surpreendente. Sobre o papel da Associação na vida de seus próprios membros, o bordão “é complicado…” foi a resposta que eu mais recebi dos líderes da Associação, sempre que toquei no assunto do empoderamento. A atitude prevalente é lembrar que as enormes desigualdades na educação e outros indicadores sociais são grandes demais no Nordeste. Uma única organização não pode ser responsável por ensinar maracatuzeiros a usar câmeras digitais e computadores que tenham se tornado acessíveis num Ponto de Cultura, ou ajudar os maracatuzeiros a se tornarem “produtores culturais” credenciados, para que possam iniciar seus projetos sem depender dos que lucram com o trabalho alheio. Ou seja, a desculpa é que essas questões só poderão ser resolvidas num ponto distante do futuro, infinitamente adiado, depois que problemas socioeconômicos mais básicos tenham sido resolvidos. O paternalismo não gosta que seus filhinhos cresçam, e um coronel depende de uma clientela ignorante e analfabeta para manter seu poder e privilégio. Em termos do “mercado” contemporâneo de cultura popular em Pernambuco, é do interesse da FUNDARPE e da Associação que os maracatuzeiros continuem a ser somente cortadores de cana analfabetos. Isso possibilita a consolidação do poder de ambas e maximiza seu prestígio e riqueza, ao restringir o número de “produtores” nos megaeventos do tipo que adoram apoiar e promover, mantendo assim o conhecimento e as conexões políticas “dentro da família”, num grupo pequeno e fechado.

Uma vantagem de se autonomear guardião e protetor da tradição, como faz a Associação dos Maracatus, é que ninguém cobra a sua responsabilidade por todo esse negócio de guardar e proteger. Você pode escolher, como achar melhor, se e quando vai transformar sua retórica em ação, quando for conveniente para seus interesses. E, aparentemente, a Associação não considerou que a imposição de um toque de recolher às sambadas e ensaios fosse contrária aos seus interesses, apesar dessa restrição ser uma ameaça real e tangível a costumes que têm quase cem anos. Conforme eu descrevi no meu post anterior, a tradição da sambada consiste no embate entre dois mestres de maracatu, que fazem duelos de verso improvisado durante toda a noite, até o amanhecer. É uma das mais bonitas e fascinantes exibições de criatividade a que se pode ter o privilégio de assistir, para quem tiver a sorte de ver uma sambada antes que elas entrem em “extinção”. Absolutamente não há como esses eventos acontecerem com as restrições de tempo impostas agora. Eles precisam de uma noite inteira para se desenvolver, e isso é fundamental.

Embora tenham enviado representantes às primeiras reuniões convocadas para discutir a situação, a Associação e a FUNDARPE logo se afastaram ao primeiro sinal de conflito genuíno, que ocorreu na forma de uma ação legal contra o Ministério Público. Não só aquela organização recusou-se a “defender a tradição”, como mostrou seu desagrado àqueles que escolheram fazer parte da campanha, recebidos com frieza no momento de participar de festivais e perdendo a oportunidade de se apresentar com o apoio da Associação.

Com o perdão da frase surrada: Com amigos assim, quem precisa de inimigos?

(tradução:  Martha Elisa)

This entry was posted in Uncategorized and tagged . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *